A VINGANÇA DOS ARQITECTOS ?

Vasco Ribeiro
Outubro 2008
* * *
Durante largos anos assisti, como assistiram os portugueses da minha geração, à repetida e catastrófica ausênca dos Arquitectos nas edificações que, nalgumas fases, surgiam como cogumelos e, súbitamente, mudavam completamente o cenário de muitas janelas, por vezes passando, mesmo, a constituir o único fundo da sua paisagem.

Eu, que sempre tive a mania de morar o mais próximo possivel do Olimpo ( não desacreditando a relação directa entre a divindade e as alturas ), ainda fui escapando, na medida do possivel, a esta mórbida acimentação do espaço.
Agora, os adeptos ou resignados dos rés-do-chão...

Bom, antes de prosseguir, talvez convenha centrar o objecto de que se fala.
Até agora apenas de edificação e cimento... mas que edificação e cimento?

Imaginemos que a família Serôdeo se habituou a cohabitar com um estaleiro ao pé do seu lar, mesmo em frente.
Imaginemos que a Senhora Serôdeo conseguiu disciplinar a família a descalçar os sapatos à entrada, teimando em não ver arte nas pegadas de lama no soalho e nos tapetes.
Imaginemos, ainda, que a Senhora Serôdeo, qual Serôdeo d’Arc, consegue até educar todos os Serôdeos a usar, à entrada de casa, uma escovinha de calçado estratégicamente guardada no armário do hall de entrada.

Imaginemos, como nos ensinou a sétima arte, que este status quo existiu por bastante tempo, mutável mas completamente indiferente ao nosso olhar e à nossa vontade.

Por fim, imaginemos os Serôdeos a chegarem um dia a casa. Acercarem-se da janela, chamarem-se uns aos outros, para verem em coro a edificação que ocupa a totalidade da vista da janela da sala.

Por detrás da verde estôpa plástica que escondia o cenário aparecia, hélas, a obra!

E o que apareceu?
Uma obra de arte que agradou mais ou menos a sensibilidade estética , mas inevitávelmente espevitou a educação artística dos Serôdeos?

Não. Preparem-se para o pior.
Por detrás do pano, frustrando as mais elementares e legítimas espectativas estéticas dos Serôdeos, aparecia um paralelipípedo de concreto, muito concreto, muito uniforme, no qual apenas vivia uma placa anunciando: “ Vende-se, T1, T2...”.

Ao fim de alguns dias, ficou provado que começaram as vendas; que existia vida. Ao nível do rés-do-chão, mesmo em frente, como daqui ali, deparava-se aos Serôdeos, dependuradas do arame, à janela, a secar, as cuecas do Senhor Martins.

Já tinham três elementos para ver da janela da sala. Um paralelepípedo, uma placa de vendas e umas cuecas.


E os leitores pôr-se-ão a questão:
O que é que têm a ver com as cuecas do Sr. Martins? O que é que os Serôdeos têm a ver com as cuecas do Sr. Martins? O que é que me interessa as cuecas do Sr. Martins?
Pois, nada. Absolutamente nada.

Por isso as cuecas do Sr. Martins estarem tão deslocadas no arame daquela janela que, quer queiramos quer não, faz parte não só da vista da sala dos Serôdeos, mas também da inevitável e estimável realidade a que se convencionou chamar de paisagem urbana.

E agora? Perante a realidade?
Quem vamos julgar? Como vamos julgar? Quem e como condenar?

Nesta altura o leitor começa a pressentir que estamos em terreno propício para desenvolver uma dissertação sobre o gosto, a seriedade e a competência dos construtores civis; ou, ainda, em versão macro, a explanação de uma tese acutilante sobre as perversidades do sistema.

Não. Lamento. Não temos coisas tão complicadas.
Falamos exclusivamente do comportamento dos edificadores e do bom-senso social.

Condenamos os Patos Bravos? Bravos e mansos? Já agora todos, na ausência de melhores critérios de distinção?

Não.
Talvez a insensibilidade dos construtores não seja superior à dos que permitiram, em Roma, as lutas de gladiadores e à daqueles que, na minha geração, conviveram com os touros de morte.
É não raramente perverso julgarmos com os olhos de outro tempo.

Os construtores civis edificaram o que se lhes assemelhou mais rentável e o que, em última análise, a sociedade, com ou sem bom-senso, lhes permitiu.

E agora, em flashback, voltando à nossa históriazinha anterior, temos, então, uma parte substancial da explicação da preplexidade dos Serôdeos, perante o monumental mama--racho.
Foi uma obra da sobrinha do construtor, uma rapariga com muito geito para o desenho, com assinatura do engenheiro.
A quebrar a rigidez da forma e a monotonia da criação, apenas as cuecas vermelhas do Senhor Martins, que não constavam nas telas finais; verdade se diga.

Debaixo do pano surgiu, afinal, o quê?
Um paralelepípedo de tijolo, massa, ferro, vidros e tinta, e um sujeito a cumprir a obrigatória rendibilidade, resultante do mais baixo custo das compras, versus o máximo valor na venda.

Quem é que estava a falar de arte? De consciência estética e social? De bom-senso?


Exactamente. Estamos a falar da falta de arquitectura e, com ela, forçosamente, da falta do arquitecto!

Durante demasiado tempo, no meu e no tempo dos Serôdeos, assistimos a uma apreciável falta de consciência da importância da arquitectura e do arquitecto.
Recordo que em Portugal, nos anos 70, 80 e 90, para o português médio, como para o promotor imobiliário, o arquitecto era um senhor mais ou menos de bigode, de mala a tiracol, razoàvelmente excêntrico, que diletava sobre os ângulos e filosofava sobre as superfícies.
Requerer arquitecto era coisa de ricos, excêntricos e/ou estrangeiros.


Posso contar connvosco novamente? Avançam para o início deste século, esquecendo as miudezas circunstânciais do percurso da arquitectura no dealbar do século XX.? Obrigado.

Século XXI. Início. Tudo de novo? Continuidade? O despertar das artes? O “despertar dos mágicos”?
Que caminho , em Portugal, na arquitectura?

Derrepente os Serôdeos, já mais entradotes, modernamente cotas, resignadamente rendidos à indomentária dos Martins, começam a assistir ao aparecimento de construções, quarteirões e bairros, onde lêem a assinatura do arquitecto do rés-do-chão ao 18º andar; no caso do prédio ter só dezoito andares.

Tudo é arquitectura. Tudo é mais ou menos ininteligível para os Serôdeos. Tudo tem, mais ou menos, novamente, para os Serôdeos, a aparência de ser coisa para ricos, extravagantes e/ou estrangeiros.

Mas, quem se habitua a resignar com as cuecas do Senhor Martins, não se conforma com a vizinhança de formas arquitectónicas que não entende?
Claro que sim!

A Senhora Serôdeo, com um extremo sentido prático da vida, insiste que aquela espécie de lago, no meio da pedra, com um repuxo ridículo, serve para nada. Que vai ser uma lixeira e a piscina dos meninos da rua.

O Senhor Serôeo, visivelmente “ultrapassado”, deita as mãos à cabeça quando lê no jornal que o arquitecto concebeu em projecto o abate das árvores da rua para que no pavimento de pedra polida reflictam, no inverno, as imagens e as sombras das contínuas fachadas de pedra dos edifícios fronteiros.
Uma leitura estética que o Senhor Serôdeo não entende. E eu também não.

Nós, todos os Serôdeos, esta geração de aprendedores e resistentes, com mais ou menos cultura, com mais ou menos sensibilidade estética, não estaremos, súbitamente, a assistir a um fenómeno porventura não menos perverso no âmbito da arquitectura?

Fica, não raramente, a sensação de que diversíssimas edificações, cuja arquitectura tem inegávelmente a cara do dono (do projecto), estão abruptamente desenquadradas do contexto social, do momento e de qualquer conceito estético ou arquitectónico.

Vou ser mais claro.

Fica a sensação de que, não raramente, têm vindo a fazer esculturas urbanas, em vez de edificarem prédios e quarteirões.
Mais. Esculturas que, amiúde, mais parecem caprichos do arquitecto.

Ninguém percebe o que significa. Ninguém percebe porque lá está. Ninguém percebe para que serve. Ninguém gosta.

Os Serôdeos mais atrevidos, que têm a terrivel mania de tentar compreender o mundo em que vivem, quando ousam interrogar alguns intelectuais-de-jet-set, não raramente obtêem a redutora resposta:

- Você não sabe? É do Arquitecto X!!!

A que, dramáticamente, alguns Serôdeos e idiotas, na circunstância, respondem:

- Ah, bom!... Bem me pareceu....

Ou seja, a coisa está explicada; e perdoada...

O nome X, passe de mágica, faz passar o mama-racho a obra-de –arte.

Não menos curioso é notar que parece ser adoptada uma sábia estratégia comercial para as obras incompreensiveis.
Torná-las caras; o mais caras possivel. Na pontinha da capacidade de individamento da vítima.
Isto, para as tornar mais intangiveis, mais altas, mais divinas, mais arte.

Como se do planeta da tribo dos arquitectos, e tribo não é pejurativo, tivesse emergido uma franja de iluminados que, estirador informatizado numa mão e chicote na outra, tivessem sido enviados à terra para nos castigar. Olho-por-olho...

Teria honras de ser gravado, em qualquer documentário spielbergiano, como A Vingança dos Arquitectos.

E eis que nos deparamos aqui, exactamente, com um corolário muito sensivel e precário do que é hoje a relação entre a arte e a sociedade; ou, se quiserem, a sociedade e a arte.

Nós, os da geração que aprendeu e preservou os valores perenes e criou alguns que são as quase únicas referências sérias dos nossos dias, sabemos que a arquitectura é uma área muito séria. Fundamental. Quase inteiramente responsàvel pela paisagem urbana; e, como tal, pela coreografia das nossas vidas.

Os arquitectos devem ser por nós profundamente estimados. Devemos dever-lhes imenso.
Não por saberem impôr a sua arquitectura circunstâncial, mas, fundamentalmente, por saberem, dialéticamente, criar, desenvolver e projectar obras que constituam arte. Obras que entendamos; que entendamos como arte e com as quais possamos viver bem, excitados mas tranquilos, por mais de um século.

Essa é, em suma, a grande grandeza e responsabilidade da arquitectura. Edificar o mundo em que vivemos e em que temos a esperança de continuar a viver.

Apetece-me dizer, com a vossa desculpa - puxa, que responsabilidade...

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